sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

dias de espera

 




foto, 2019, j

it 
has
been
proven
that
the
eyes
don't 
see-

oh
not 
again
a crazy
looking
for
fame
framing
the eyes
2021, j


music
Because I Could Not Wait For Death
Dakota Suite

https://youtu.be/bqRxsAMl2dw







segunda-feira, 29 de junho de 2015



Herdeiros somos destas grades, onde a luz nos encerra e nos projecta como sombras. No mais íntimo do silêncio, a palavra labora incógnita, quase órfã. 

sábado, 30 de maio de 2015

Album: Chants Juifs 1996

Violoncelle: Sonia Wieder Atherton
Piano: Daria Hovora
Arrangements: Jean François Zygel

https://youtu.be/WEPJ5zaA6kU

j'écoute tout
le silence la douleur
le vent qu'invente
ma brûlante blessure

où gît maintenant
tout ce qu j'ai vécu?
2015



são estas as palavras
que na alma cravas
 pregos enferrujados
de obras abandonadas



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Escrevo palavras como torpedos
e morro por dentro dos segredos
nos escuros recessos dos suores frios.
A mão cava crava veias no corpo
no escuro mar de te amar -
nada tenho já para dar
a não ser a demência de não te olhar,
vértice de todos os lugares
lagar de todos os mostos de todos os rostos.
Sonho e deponho o que sonho
no breve abrir dos armários
escurecidos na naftalina-
e a tua mão gadanha  de carne
repousa quase morta no meu silêncio.
Gundín Estevz



Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
Herberto Helder

Escrevo o meu nome, na pressa de o esquecer. Escrevo o vento nos pulmões calcinados do tempo. Sou o osso roído de um cão perdido. Uivo e silvo, no baile infinito da morte! E num salão de espelhos, desenho o sapateado da vertigem, furor de querer desaparecer no seu próprio rodopiar, de querer ser dervixe do invisível.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Já nada sei desta palidez
da lentidão esculpida do mármore
das igrejas abandonadas num estranho luar
tudo é vago no silêncio em que vivo
habitante perdido na vagarosa memória
de nada haver sido de nada haver em mim nascido.
Virginal só agora vem a vida
e sou o teu filho esquecido
como o teu seio tão nu e despido!
12-2-2014

Quadro de Jean Fouquet
http://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Fouquet